A pecuária brasileira responde sozinha por 17% das emissões nacionais e por mais de 60% de todo o metano emitido no Brasil. Se o metano é o segundo gás que mais contribui para as mudanças climáticas, fica automático posicionar o pecuarista como o principal vilão do clima no país. Mas a conversa pode mudar de contexto se a capacidade de reorganizar o processo produtivo subir de patamar tecnocientífico.
Debater o tema está muito longe de ser uma tarefa fácil: fermentação entérica, manejo de dejetos, sistemas agrossilvipastoris, genética de ciclo curto, transição energética, aditivos alimentares, bem-estar animal e uma sequência quase interminável de temas e termos complexos que, juntos, resultam em uma sopa de palavras difíceis de digerir.
O Brasil assinou o Compromisso Global Sobre Metano em 2021, mas o agro já rumina o tema há mais de duas décadas, quando surgiram os primeiros estudos setoriais (como debates liderados pela CNA e Embrapa) para mensurar o metano entérico e avaliar o papel sequestrador de carbono das pastagens por todo o país. A jornada do vilão que se torna herói, por vezes, leva mais tempo que o planejado, mas o arco da redenção do pecuarista brasileiro parece começar a sair do roteiro e ir para o campo.
A conversa pública sobre produção e fins comerciais de biogás e biometano, por exemplo, dá sinais claros de crescimento (ainda que seja um crescimento em ondas específicas). Ao enxergar com tangibilidade a possibilidade de aumentar a rentabilidade da cadeia produtiva com investimentos na transformação do metano, o agronegócio deixa de encarar o “arroto do boi” como um tema indigesto e passa a ter mais apetite na abordagem do que era assunto proibido até pouco tempo atrás.
Acompanhamos e analisamos as menções sobre o universo das emissões nos processos produtivos do agro entre janeiro e setembro deste ano. O comportamento que encontramos não parece indicar uma simples curva de popularidade. As ondas de repercussão em ambientes digitais são provocadas por acontecimentos de naturezas diferentes no mundo real. O primeiro pico de discussão, entre janeiro e fevereiro, é marcado pela narrativa política criada por Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, em sua visita à planta de biometano da Cocal, e pelo congresso debatendo o Gás do Povo, o biometano como fonte energética e a adoção de aditivos alimentares para a redução de emissões. Maio coloca o biometano dentro da Agrishow e de uma narrativa mais ampla de liderança tecnológica do agro. Agosto é diferente dos primeiros picos porque o debate avança para regulação, comercialização e formação de cadeia industrial.
Das 27.405 publicações analisadas, 12.192 foram classificadas na temática de biometano, o equivalente a 44,5% de toda a conversa sobre metano dentro do agro. Em 10.475 conteúdos, o termo aparece explicitamente no título ou no texto. Ao mesmo tempo, o tema geral “Metano” reúne 11.807 publicações. De uma perspectiva de quem está dentro da cadeia, é possível afirmar que o crescimento do biometano não representa simplesmente mais atenção ao problema das emissões. Ele representa a formação de uma conversa econômica própria do setor ao redor de um problema que há pouco tempo era abordado apenas por ambientalistas.
Ciência, pecuária, energia e política: a mesma molécula, cadeias produtivas estendidas e narrativas institucionais em franca disputa
O biometano (ou o biogás) não representa o fim do ciclo produtivo em uma pecuária amigável da perspectiva ambiental, mas sim o fechamento de um ciclo econômico. Ao invés de encerrar o processo, ele transforma o que antes era um passivo ambiental (os dejetos animais principalmente) em um novo ativo de valor: energia limpa que pode movimentar o sistema produtivo da porteira para dentro e o caixa do negócio da fazenda para fora.
A molécula que movimenta um debate climático, movimenta também um debate econômico. Personagens que em outros momentos já se posicionaram contra o avanço de pautas ambientalistas, agora buscam emular narrativas científicas para justificar novos processos produtivos, investimentos em novas tecnologias e a busca por alternativas energéticas que tirem o agro (e o país) da posição de refém dos combustíveis fósseis.
Historicamente reconhecido como o “dono” dos projetos ligados à transição energética em Brasília, Arnaldo Jardim é um dos principais responsáveis por apresentar ao agro o biometano como uma solução de negócio ao problema ambiental das emissões. Sua atuação nesse debate vai além da relatoria da Lei do Combustível do Futuro (Lei nº 14.993/2024), Jardim é um dos grandes articuladores da FPA no ambiente da substituição dos fósseis e, desde 2015, quando ainda era Secretário da Agricultura no governo Alckmin, já promovia políticas públicas voltadas à bioeconomia e à agricultura de baixo carbono, incentivando o aproveitamento energético de resíduos agroindustriais no estado que concentra o maior polo sucroenergético do país (ou seja, uma discussão que transborda do pasto e chega ao canavial e à usina).
Em outra esfera de poder, o governador Tarcísio de Freitas assume o protagonismo da popularização recente do tema, principalmente ao dar nomes aos arrotos dos bois e aos dejetos de outros sistemas produtivos, como o do etanol. Chamar a planta de biometano da Cocal de “pré-sal caipira” (confira no vídeo) é mais do que um exercício de publicidade, é uma forma de trazer um tema complexo para a alçada de compreensão do produtor rural (e do eleitor também).
Durante a Agrishow (onde o produtor rural conhece novas tecnologias, aprofunda sua experiência com elas e fecha negócios que transformam o sistema produtivo), Tarcísio publicou que “a transição energética já começou em São Paulo” e acrescentou que “quem está puxando esse movimento é o agro paulista”. A mensagem veio acompanhada de máquinas movidas a etanol e biometano, robôs solares e tecnologias de agricultura de precisão.
A publicação ganhou circulação relevante nas três principais plataformas em que foi distribuída. No Instagram, o Reel registra - até o momento da publicação dessa edição do L&A - mais de 60 mil curtidas, cerca de 2,5 mil comentários e 1,7 mil republicações, somando mais de 64 mil interações visíveis. No Facebook, o vídeo ultrapassa 373 mil visualizações, além de aproximadamente 27 mil reações e 1,3 mil comentários. No X, a publicação reúne cerca de 21,2 mil visualizações, 2 mil curtidas, 405 republicações e 68 respostas.
A molécula, claro, não carrega consigo viés ideológico algum. Mas as histórias contadas a partir do que ela se torna ao longo ou ao final dos processos produtivos, sim, ganha temperos muito bem escolhidos por aqueles que se vendem como solucionadores de problemas socioambientais, produtivos, industriais e empresariais.
Rentabilizar e regulamentar aquilo que não pode mais ser ignorado: a nova fase da discussão sobre o tema ganha tração
O mês de agosto chama a atenção no monitoramento porque registra o maior volume de citações ao biometano do período, com 2.215 menções, e inaugura um novo tipo de discussão: o tema deixa de aparecer apenas associado a novos projetos, plantas e aplicações, e começa a avançar para questões de regulação, comercialização, infraestrutura e demanda.
Em 12 de agosto, 348 das 399 publicações monitoradas estavam relacionadas ao biometano. O principal gatilho foi a publicação da nova regulamentação da ANP, que consolida e atualiza regras de qualidade e comercialização do combustível. Naquele dia, a formulação “ANP atualiza regras para comercialização de biometano” se espalhou por dezenas de veículos e ganhou forte circulação.
A movimentação coincidiu com a realização do 13º Fórum do Biogás, em São Paulo, nos dias 11 e 12 de agosto, reunindo poder público, empresas, investidores e agentes do setor para discutir mercado, infraestrutura, mobilidade e segurança energética. No mesmo contexto, Ricardo Nunes publicou que “o biometano é o combustível renovável do futuro”, relacionando o aproveitamento do gás de aterros à substituição de parte da frota municipal.
Frota municipal - principalmente de veículos pesados - que surge frequentemente como um dos fins mais promissores do biometano. Caminhões, ônibus, coleta de resíduos e operações logísticas ajudam a tirar o combustível do espaço abstrato do “potencial energético” e colocá-lo diante de uma função facilmente compreensível: substituir parte do diesel.
Foi exatamente isso que Eduardo Paes fez em 30 de janeiro ao apresentar caminhões da Comlurb abastecidos com biometano produzido a partir do lixo. O início da postagem praticamente resume a narrativa: “Lixo que se transforma em energia e move os caminhões de coleta pela cidade.”
O Reel acumulou 17.395 interações no Instagram, sendo 16.354 curtidas e 1.041 comentários (até o momento desta publicação).
Ao mesmo tempo em que entes e agentes públicos, principalmente decisores institucionais, capitalizam atenção em volta do tema, grandes empresas se preparam para um futuro que já devia ter começado. No final de junho, JBS e Âmbar Energia anunciaram um investimento de R$ 65 milhões para ampliar a produção de biometano a partir dos resíduos das operações da Friboi em Campo Grande II, no Mato Grosso do Sul, e em Lins e Andradina, no interior de São Paulo. O projeto pretende elevar a produção dos atuais 8 mil m³ por dia para cerca de 40 mil m³ diários, aproximadamente 14 milhões de metros cúbicos por ano, até julho de 2028.
A lógica é relativamente simples, embora o processo industrial não seja. Os resíduos das operações alimentam biodigestores, que geram um biogás rico em metano. Esse gás passa posteriormente por um processo de purificação até chegar ao biometano, que pode substituir parte dos combustíveis fósseis utilizados na própria operação, na lida diária de fazendas ou na logística de transporte. É o sistema digestivo do boi estendido à cadeia produtiva em uma lógica circular que gera lucro, rentabilidade, reduz custos na operação e fecha o processo entregando autonomia energética.
Agora é hora de…
Pragmatismo, ação na ponta e de entender que ciência que nutre o ambientalismo é, por vezes, a mesma que leva ao mercado a boa nova do lucro longevo e da autonomia produtiva.
A mensagem que entra por uma ponta do sistema nem sempre sai de forma integral pela outra. No meio do caminho, ela é digerida por organizadores políticos que defendem interesses cujos interlocutores costumeiramente não aparecem como porta-vozes da novidade, mas acabam movimentando investimentos, leis e alterações drásticas no processo produtivo de quem está na ponta: o produtor rural.
O trabalho no campo, para quem está na ponta ambientalista do sistema, demanda energia, investimento, reflexão e conciliação entre interesses. No entanto, só a partir do diálogo, da transferência mútua de conhecimento e da escuta ativa em relação às dores do produtor rural, o campo climático poderá diminuir a intensidade e a influência que organizadores políticos (e seus lobistas preferidos) exercem sobre quem deveria tomar as decisões sobre os próprios processos produtivos.
Reduzir a pressão que a agroindústria (da carne e da energia) faz sobre o produtor rural é uma tarefa estratégica e necessária para quem deseja pautar a adoção de novas fontes de energia como uma solução socioambiental real, não apenas como um novo “puxadinho” produtivo que visa extrair lucros intermináveis de atividades que podem - e devem - ser mais sustentáveis tanto da perspectiva climática quanto da perspectiva financeira e produtiva para o decisor da fazenda.
A dor do produtor, tanto sobre o manejo eficiente quanto sobre o fim mais adequado aos dejetos do ciclo produtivo de cada animal do rebanho, está pautada no ambiente do conhecimento, do acesso à informação e da capacidade de adaptação técnica e tecnológica da fazenda para dentro. Os projetos socioambientais que irão transformar o debate sobre biometano em uma solução climática séria devem trabalhar no sentido de estancar o buraco entre produtores de conhecimento na academia e os decisores de cada propriedade no campo.
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