
A dança das cadeiras na FPA: quem se senta, qual cadeira ocupa e o que o produtor rural pode esperar dessa nova representação dos interesses do agronegócio
Há 4 anos, a FPA assistiu em repouso ao primeiro turno das eleições - como é tradição institucional da bancada. No segundo turno, entre Jair Bolsonaro e Lula, como já era esperado, o apoio a Jair Bolsonaro chegou, mas sem estardalhaço e, na avaliação da extrema-direita do agro, com um certo atraso.
A "lentidão” e a falta de microfones e holofotes não se repetiram em 2026. Era dia 01 de outubro, às vésperas do 1º turno, quando - com ampla cobertura da mídia e conteúdo criado por âncoras da maior bancada temática do país, como Tereza Cristina e Pedro Lupion - a FPA declarou apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro. Não faltaram aforismos, desabafos e frases de efeito como a da senadora Tereza Cristina, que afirmou que o setor produtivo “está com Flávio Bolsonaro” e endereçou um pedido de mobilização aos produtores rurais de todos os tamanhos “para tirar o PT”.
A disputa eleitoral, claro, não se limita ao executivo. O saldo final do último domingo comprova a construção de uma base cada vez mais sólida de eleitores que depositaram seu voto em parlamentares ligados ao agro por todo o país. O primeiro turno terminou com 200 integrantes da bancada garantidos no Congresso Nacional. Na Câmara dos Deputados, dos 299 integrantes atuais, 176 foram reeleitos. No Senado Federal, dos 48 integrantes, seis foram reeleitos e 17 estão em meio de mandato. Além disso, um senador da bancada foi eleito deputado federal.

Nomes como Mauro Mendes, José Medeiros, Reinaldo Azambuja, Evair de Melo e Alexandre Guimarães chegam para somar à FPA e estabelecer uma bancada ainda mais à direita (tradicional ou extrema). Além deles, nomes como Caroline de Toni e Bia Kicis rumam da Câmara para o Senado ao encontro de Tereza Cristina. Já na câmara, Pedro Lupion, Marussa Boldrin, Rafael Pezenti, Daniela Reinehr, Zé Vitor e Alceu Moreira permanecem em suas posições.
Ninguém é suficientemente audacioso para questionar a enorme concentração de poder nas mãos do agronegócio. Mas um questionamento é válido: será que esses nomes irão defender os interesses do produtor rural real?
Lula, progressistas e o conflito contínuo com o produtor rural e outros decisores de onde o agro é negócio e atividade
Produtor este que, ao deparar-se com a fala de Lula sobre votar e se ajoelhar diante de recursos quase ilimitados ao agro, respondeu nas urnas que não. Enquanto, em 2022, 77 das 100 cidades mais ricas do agro escolheram votar em Jair Bolsonaro para presidente, em 2026 o número aumentou: 83 das 100 cidades mais ricas do agro elegeriam Flávio Bolsonaro em 1º turno se o pleito dependesse exclusivamente delas. Um aumento expressivo inclusive em estados nos quais o PT, historicamente, preserva fortes bases eleitorais, como é o caso de Luís Eduardo Magalhães, na Bahia, estado tido como “salvador”do PT em eleições passadas.
À exemplo do que fez enquanto se aproximava do ciclo eleitoral em 2022, Lula subiu o tom ao dizer que o agro deveria se ajoelhar para ele. A fala não repercutiu bem nas camadas mais progressistas do agro e, claro, serviu de pólvora, estopim, combustível e comburente para os grupos da extrema-direita do agro que, por meio de cortes em redes sociais e compartilhamento em massa em grupos WhatsApp (monitorados por nosso time) inflamaram seus militantes em mais um pico de mobilização digital.
Monitoramos a conversa pública sobre agro e eleições nos meses de campanha e identificamos que o maior movimento de setembro acontece no dia 19, com cerca de 3,4 mil menções. O gatilho do pico foi exatamente a fala de Lula que, de forma rápida, passou por uma transformação narrativa: o argumento original estava baseado em entrega econômica e reconhecimento político. A reação, porém, deslocou o debate para dignidade, autonomia e submissão.
Jorge Seif resumiu esse enquadramento ao afirmar que “dinheiro público não compra gratidão, muito menos voto”. Flávio Bolsonaro, por sua vez, utilizou o episódio para reforçar a narrativa de que Lula seria uma ameaça ao agro.
A análise do resultado da fala de Lula é relevante porque ela ofereceu aos militantes dos projetos de poder da extrema-direita do agro um fato concreto capaz de alimentar uma narrativa que já vinha sendo construída desde agosto: a de que o setor estaria sendo perseguido e/ou tratado com hostilidade ou desrespeito pelo governo federal. A partir do episódio, a disputa deixou de ser apenas “quem representa melhor o agro?” e passou também a ser “quem respeita o produtor?” ou ainda “Por que se ajoelhar diante de quem não faz nada além de sua obrigação?”.
Promessas de Flávio Bolsonaro ao agro, Lupion no MAPA, Tereza Cristina na presidência do senado e um prognóstico do setor daquilo que pode acontecer
A FPA e seus principais nomes da atualidade (Tereza Cristina e Pedro Lupion) não demoraram um só minuto em reiterar o apoio a Flávio Bolsonaro para o segundo turno no próximo dia 25, bem como Flávio não esperou para fazer promessas à bancada, ao agro, ao produtor rural e às âncoras políticas que fortalecem a presença do candidato nas populações rurais de todo o país.
Ao tratar de temas do mundo real do produtor, tais como preço dos insumos importados, fortalecimento da produção de biocombustíveis, crédito, seguro e endividamento, Flávio sai na frente de Lula não só no campo intangível das narrativas ideológicas ou das posições políticas individuais, sai na frente também no campo da compreensão das dores das quais o produtor rural de qualquer tamanho se queixa atualmente. Não que essas promessas constem no projeto, no plano de governo, na estratégia de Flávio para um plano de projeto nacional, mas elas certamente constaram nas palavras que saem da boca de quem deseja ganhar eleições.

Se vencer no 2º turno, Flávio deve indicar Lupion ao Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). Além disso, Tereza Cristina desponta como nome mais provável para a presidência do Senado na próxima gestão da casa. A “tempestade perfeita” que o agro enfrenta, ao menos da perspectiva política, parece ganhar toques de verão interminável em um ambiente no qual o agro terá capacidade de tomar decisões quase autônomas sobre o futuro do país.


Se vencer, Flávio também terá condições de manejar pautas que prometiam estourar no agro, como a do fim da escala 6X1 e a da renegociação de dívidas via resgate do PL 5122, temas já abordados em edições passadas.
Agora é hora de…
Reconhecer que construir base não significa apenas conquistar atenção nas redes sociais. O que reverbera nas redes precisa estar apoiado no mundo real e, no caso do agro, há muita materialidade no que braços eleitorais e organizadores ideológicos entregam ao produtor e ao trabalhador rural.
Os projetos de poder da extrema-direita do agro formaram uma base sólida ao longo dos últimos 4 anos, capaz de transformar o perfil de eleitorado de cidades inteiras e de eleger com intensidade uma nova FPA, mais fortalecida e menos diversa da perspectiva ideológica.
Também é hora de admitir que entrar em conflito com o produtor rural de maneira generalizada é um caminho equivocado para quem quer vencer eleições. O Brasil tem mais de 5 milhões de produtores rurais de todos os tamanhos, espalhados por todo o território. Cada um desses produtores é um construtor contínuo da cultura do meio do agro. São mais de 25 milhões de habitantes em regiões rurais que moldam comportamentos, também, pela perspectiva do decisor sobre negócios do campo.
Para o 2º turno, dialogar com o trabalhador do campo demandará abrir mão do conflito, ouvir as dores, validar o sentimento e conversar sobre as questões materiais que ameaçam principalmente os negócios de médio e pequeno porte, tais como crédito e endividamento, eventos climáticos extremos, apagão de mão de obra, seguro rural e preço dos combustíveis. Só o reconhecimento das demandas do produtor e do trabalhador pode aproximar o campo progressista do voto de regiões rurais.
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