Law & Agro #3 | Cacau, leite, bezerro, crédito e a única verdade que o extremista respeita (e que causou um aumento de 36% no volume de mensagens trocadas no último mês)
publicado originalmente em 12/02/2026
Quando a realidade do mercado entra na sala por uma porta, as conspirações, os debates morais e as convicções religiosas e ideológicas saem (temporariamente) pela outra
As últimas semanas dos grupos monitorados foram marcadas por debates intensos acerca de crises atravessadas por produtores de cacau e leite, pela insegurança do pecuarista em 2026 e por vitórias institucionais daqueles que nasceram na contramão da institucionalidade.
Esse movimento reforça o que diagnosticamos nesses dois anos de monitoramento e análise: a “cola” que aglutina produtores rurais radicalizados é ideológica e sentimental. Mas o combustível dos debates nos quais os produtores mais engajam é tangível: o que chama a atenção do produtor e o que o alerta para possíveis mudanças de comportamento é o mercado, tanto em suas crises quanto em suas oportunidades.
Tornar a atividade mais rentável e defender a longevidade da fazenda é o que move o produtor em sua tomada de decisão.
O sofrimento de quem produz leite e cacau
Não é de hoje que o tema está aquecido. Organicamente (ou não), pecuaristas de leite e produtores de cacau vêm se manifestando sistematicamente nas redes sociais desde 2025.
Reduzir o preço dos alimentos a qualquer custo, por vezes, desestabiliza cadeias produtivas e inviabiliza o negócio de quem é pequeno - esse é o argumento principal daqueles que abordam o tema. Tanto em redes sociais quanto em grupos privados.
Proteger a saúde do negócio é o foco do produtor em momentos de crise. E é natural que narrativas que prometem defender seus interesses ganhem atenção, tração e capacidade de multiplicação por meio de compartilhamentos orgânicos.
Ao mesmo tempo em que inflamam os sentimentos do produtor que teme pelo fim de sua atividade e de seu legado, os representantes dos grupos organizados se movimentam para fazer cada vez mais barulho em pautas que já gritam socorro.
Trafegar entre a institucionalidade política e a propaganda ideológica é a estratégia dos donos dos projetos de poder para os quais olhamos diariamente.




E a flutuação do preço do bezerro? E o crédito?
Com reposição mais cara, mercado internacional instável e margem mais alta do frigorífico, o pecuarista se sente como elo frágil da cadeia. E ele é.
O temor de um colapso na cadeia produtiva da carne também não é uma novidade. A atividade do pecuarista está esmagada.
Quanto mais adaptado o produtor fica aos novos preços de animais prontos para o abate, mais preocupado com a reposição ele se torna. O giro de um negócio rentável, longevo e saudável depende da margem na venda, do crédito acessível e de custos estáveis durante o processo de recria e engorda.
A maior parte dos grupos que monitoramos está na região amazônica, principal responsável nacional pela venda de gado vivo, que abastece cadeias em diversos estados. O produtor da região, especialmente o perfil de participante dos grupos para os quais olhamos, anseia por preços mais equilibrados em todas as pontas do negócio.
Mais uma vez, os grupos recorrem a mensageiros técnicos confiáveis para subsidiar os debates que aconteceram nos últimos dias. Kellen Severo, Hélio Moreira Júnior (Acripará - Associação de Criadores do Pará) e Ronaty Makuko serviram de âncora técnica para os radicalizados.



Vitórias institucionais simultâneas
APRIA E ABDAGRO - dois dos principais projetos de poder aos quais nos dedicamos - conquistaram, na mesma semana, vitórias importantes no jogo de Brasília (ainda que um deles não pareça satisfeito).
Vinícius Borba, fundador da APRIA - Associação dos Produtores Rurais Independentes da Amazônia. Raphael Barra, presidente da ABDAGRO - Associação Brasileira de Defesa do Agronegócio.
Duas lideranças em plena ascensão, que transferem a audiência crescente das redes sociais para grupos privados onde formam militantes organizados que contribuem (com energia, tempo, conhecimento e dinheiro) para o crescimento de suas associações.
Segundo eles, não nasceram para concentrar poder político ou para disputar cargos eletivos. Mas para defender de maneira implacável e incansável, com unhas, dentes - ou outras armas - os interesses de seus associados e do produtor rural de suas regiões.
Ambos estiveram em Brasília simultaneamente nos últimos dias. Movimentos que devem ser lidos como vitórias institucionais de quem joga o jogo da organização de bases sólidas, aguerridas e cada vez maiores. Eles têm um inimigo em comum: todos que pensam de forma contrária.
Raphael mais satisfeito, Vinícius menos. Os dois saem de Brasília com mais daquilo que os fortalece: a atenção e confiança plena de seus seguidores e militantes organizados.
Portanto, a participação desses atores em debates importantes em Brasília, com apoio de parlamentares relevantes para o produtor rural, reforça o posicionamento dessas associações e seus líderes como âncoras de mensagem. É uma vitória narrativa, não prática. Mas uma vitória.
Agora é hora de…
Acompanhar as movimentações institucionais e as possíveis alianças que os representantes dos projetos de poder vão costurar daqui em diante.
Estamos tratando de atores que, sem dúvida, irão apoiar candidatos em todas as esferas neste ciclo eleitoral e podem, principalmente pensando no congresso, definir eleições.
Uma nova bancada do boi vai se formar em 2026 e é essencial que o campo climático esteja pronto para compreender com profundidade a posição dos novos integrantes e, quando necessário, combatê-las.
Afinal, o clima não vira voto. Mas o voto vira clima.
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