Law & Agro #4 | O Brasil não é o país do carnaval, não é o país do futebol. É o país do agro (e da biologia negacionista)
publicado originalmente em 05/03/2026
Quando as tradições populares se tornam caminhos para o reforço de signos e símbolos, o debate sobre a construção da identidade da nação se torna ferramenta de engajamento
A discussão sobre os aspectos fundadores da identidade nacional é ampla, profunda, complexa e, na última década, cada vez mais polarizada. De tempos em tempos, grupos variados questionam os “mitos fundadores” que transformam o Brasil em uma pátria de chuteiras nos pés e tamborins nas mãos. A ideia de patriotismo também sofre com os mesmos malabarismos semânticos.
O período de análise desta edição carrega consigo uma cuidadosa curadoria de conteúdos que, da perspectiva dos expoentes de narrativa do agro (e da militância organizada em projetos de poder da extrema-direita) reforçam símbolos e signos inerentes ao homem do campo brasileiro.
Ao resgatar o imaginário do trabalhador rural cumpridor da missão de alimentar o mundo, detentor de uma relação celestial com a terra, sustentador da economia brasileira e principal responsável pela preservação da floresta em pé, mensageiros confiáveis do agro reinventam, para um grupo relevante de pessoas, o que é ser brasileiro.
O país do agro. E só do agro.
Enquanto outras bolhas conservadoras nas redes sociais - e na mídia tradicional - engajaram na trend da família em conserva, os grupos monitorados focaram em reinventar o ser brasileiro.
Quando o sol nasce, o trabalhador do campo já está na lida. É de seu trabalho duro que vem o bife do churrasco, o algodão da roupa de marca, o grão do café superfaturado do grande centro e até a soja do molho que acompanha o sushi.
Faça chuva ou faça sol, o trabalhador do campo é o personagem que enfrenta entraves jurídicos, legislações mirabolantes, compradores poderosos, intempéries, mídia, ONG’s estrangeiras, governo e sociedade. Contra tudo e contra todos na árdua missão de produzir aquilo que a cidade consome. Não importa o que aconteça, o agro não para.
É assim, ao menos, que âncoras de mensagem que monitoramos falam de si e de seus pares para suas bases cada vez maiores. E funciona. O ressentimento que traciona o público dos projetos de poder que monitoramos caminha de mãos dadas com a narrativa de falta de reconhecimento por parte da cidade ao trabalhador rural.
Tomar para si aquilo que define o que é ser brasileiro, em última instância, é uma cartada que surge em momentos de crise na atividade.


O biólogo da Record e SBT agora é do agro?
Talvez a figura de Richard Rasmussen tenha aparecido no seu feed nos últimos dias. O engajamento assustador do biólogo faz parte de uma ampla estratégia de sequestro da pauta climática.
Desde que deixou de ser o biólogo irreverente da TV aberta e se tornou o biólogo do Bolsonaro, Richard Rasmussen passa por altos e baixos. Tanto em sua carreira quanto em sua imagem para diferentes públicos.
De trajetória polêmica, Richard é um biólogo que chama atenção de diversas camadas da sociedade. Apesar de um longo histórico de acusações de manejo irregular de fauna, de multas pelo IBAMA e da recente apreensão de um veículo ilegal por parte da PRF em sua expedição na Transamazônica, Rasmussen é socialmente identificado como um mensageiro confiável para questões ambientais. E os projetos de poder à direita sabem disso.
A pauta climática passa por um momento de sequestro semiótico. Uma disputa de enquadramento que provoca uma inversão de papéis: o produtor rural, reforçado por mensagens da indústria, da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e de seções especializadas na mídia tradicional, se torna o principal responsável pela manutenção da floresta. Ao mesmo tempo em que ambientalistas se tornam os vilões que, ao defender os interesses europeus e estadunidenses no Brasil, emperram o desenvolvimento econômico do país.
De 2024 para cá, Richard passou a se envolver profundamente com atores ligados ao agro, inclusive com um dos nossos monitorados. Ao cumprir o papel de porta-voz do desenvolvimento econômico na região amazônica, Richard é reconhecido pelo produtor rural como uma figura que pratica a “ciência do bem”. Uma estratégia de comunicação que transpassa os limites comuns do greenwashing e adota a insanidade da informação climática como verdade absoluta.



O que o reforço de signos tem a ver com o sequestro semiótico?
O volume do engajamento e a ocupação de canais alternativos como meios de atingir públicos em disputa.
Há quem diga que o brasileiro cansou da polarização ideológica, ainda que muitas bolhas algorítmicas façam o usuário de redes sociais pensar o contrário.
Números recentes de pesquisas variadas (More In Common e Ipsos, por exemplo) evidenciam que o cenário de guerra intensa entre exércitos raivosos, ainda que persista para o ciclo eleitoral que se aproxima, vem perdendo força.
Renasce, então, um público em disputa. Composto por jovens (sucessores de negócios no campo, por exemplo) em início de construção das próprias convicções políticas, por uma maioria silenciosa de pessoas que não se identifica com os exércitos acima citados, por quem sente tristeza, cansaço e medo em relação aos rumos políticos do Brasil.
Neste contexto, reinventar o que é ser brasileiro, reforçar signos e símbolos, inflamar sentimentos e fazer tudo isso por meio de mensageiros confiáveis (como um educador ambiental que até pouco tempo atrás conversava com crianças nascidas nos anos 90 e 00) em canais alternativos (TikTok, Kwai, Reddit e Discord), parece a base de uma robusta construção de futuro.
Sequestrar a pauta ambiental, descredibilizar quem trabalha nela, recompor a informação climática pela perspectiva de atores “neutros” e reacender aspectos construtores do sentimento de nação, à primeira vista, são projetos de longo prazo. Combatê-los é preciso.
Agora é hora de…
Entender que símbolos, signos, sentimentos e imaginário importam muito na hora de comunicar com objetivo de mudança de comportamento por parte do produtor rural.
O “espectro produtor rural brasileiro” é amplo e diverso. Há camadas invisíveis e inacessíveis, mas também há camadas mais suscetíveis à adoção de novas técnicas e tecnologias.
A disputa acontece primeiro - quase sempre - no campo das decisões de negócio. O produtor muda seu comportamento para aproveitar oportunidades ou para manter a longevidade da propriedade.
No entanto, o intangível sempre acompanha a tomada de decisão, por vezes exercendo papel determinante.
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