Law & Agro #5 | A expedição Agro na Amazônia, APRIA, APROSOJA e quem ganha capital político ao revisitar problemas antigos
publicado originalmente em 27/03/2026
Quando o estado abandona o trabalhador, seja da cidade ou do campo, nasce um terreno fértil para semear o ódio oportunista, ainda que fantasiado de luta pelos direitos negados ao cidadão
Estamos atravessando o mês de março de 2026, com abril batendo à porta. A essa altura do campeonato, quase todo brasileiro sabe, ainda que de forma superficial, que a região amazônica enfrenta um grave problema logístico que vem, sucessivamente, sendo alvo de promessas não cumpridas e de planos que não saem do papel. Sem importar o lado político dos governadores dos estados envolvidos ou do governo federal, o padrão é prometer e sumir.
Historicamente, quando um ciclo eleitoral se aproxima, quem revisita problemas antigos e amplamente discutidos, via de regra, é alguém buscando capitalizar a própria imagem e se posicionar como um grande salvador dos que padecem à margem do esquecimento por parte do estado, da mídia e da própria sociedade.
É com base nessa receita repetida que a Associação de Produtores Rurais Independentes da Amazônia (APRIA) lança sua nova cartada de crescimento de alcance, adensamento de público consumidor e reforço de mensagem. Mais uma vez, o audiovisual, as redes sociais e uma teia intensa de compartilhamentos em grupos privados são usados como tratores ideológicos por aqueles que movimentam bases de militantes em plena expansão.
A expedição que promete fazer o que ninguém faz
O perfil do produtor rural radicalizado - este que compõe a base de militantes que mais cresce na Amazônia - é composto por alguém que se aglutina a movimentos por motivações sentimentais. Ele não se sente ouvido sobre suas necessidades nem representado por atores que deveriam fazê-lo, tampouco respeitado em sua atividade.
Quando Richard Rasmussen, Vinicius Borba (APRIA), Bruno Valle (Sindicato dos Produtores Rurais de Uruará - SINPRUR) e Vanderlei Ataides (Associação dos Produtores de Soja do Estado do Pará - APROSOJA/PA) se comprometem a viver a Amazônia em uma expedição que “vai mostrar a importância, a produtividade, as boas práticas, mas também os desafios, perseguições e angústias que o Agro da região vive” - nas palavras dos próprios expedicionários - o produtor rural entende que a motivação por trás da aventura é nobre e aguerrida.
O sentimento de pertencimento e acolhimento toma conta de uma parcela significativa de pequenos produtores e, a partir de ações como a Expedição, figuras como Vinícius Borba e Vanderlei Ataides se posicionam não só como referências políticas e jurídicas, mas também como referências humanitárias.
Ao dar um microfone de mídia tradicional nas mãos de famílias que produzem na região, além de alguns minutos de espaço em redes sociais de alto alcance local, a APRIA e a APROSOJA, se deslocam pela Transamazônica mostrando gargalos logísticos gritantes e colocando o produtor rural como protagonista da própria história.
Vácuo de poder sempre é preenchido por quem promete escutar
Dar visibilidade a um grupo isolado e ressentido é uma forma inteligente de canalizar sentimento e mirá-lo no objetivo primário desses projetos: o poder institucional.
A Expedição Agro na Amazônia já é um grande sucesso de alcance de mensagem e engajamento. No Instagram, a soma das visualizações dos vídeos publicados pelos perfis envolvidos ultrapassa 215 mil. Em apenas 4 dias (até o momento).
Já no YouTube, o canal Inverno na Transamazônica (719 mil inscritos) transmitiu ao vivo a travessia entre as cidades de Uruará e Rurópolis, no Pará. São mais de 9 horas de material audiovisual que já contam com 53 mil visualizações, 3,2 mil reações e 41 comentários exaltando as figuras de Vinícius Borba, APRIA e APROSOJA. Em dois dias.
A expedição, além de estar levando o microfone do SBT pelas cidades visitadas, também foi noticiada em portais de notícia relevantes, como a matéria na Revista Oeste.
Mais para baixo no mapa do país, no centro-oeste, outras lideranças que repetem a receita da escuta e do acolhimento para com o produtor consolidam seus projetos de poder. Raphael Barra, um dos fundadores de grupos monitorados pela nossa equipe, confirmou no dia 25/03 sua candidatura à Deputado Federal pelo PL. Deus, Família, Trabalho e Liberdade.
Bolsonarista declarado (e com relação conturbada com a base de eleitores de Ronaldo Caiado), Raphael Barra é presidente da Associação Brasileira de Defesa do Agronegócio (ABDAGRO), criador de conteúdo no perfil Brfazendas e uma importante liderança para o produtor rural quando se trata de assuntos como crédito, seguro e questões tributárias. Temas em alta e com tendência de crescimento para os próximos anos.
Ouvir o produtor rural é o único caminho para ganhar sua confiança.
O que a postura dessas lideranças tem a ver com as eleições que se aproximam?
O desenho do pleito está dado.
Enquanto Flávio Bolsonaro conserva a base forte do bolsonarismo, busca construir novas bases dentro do público em disputa e cresce de forma acelerada nas pesquisas, lideranças regionais buscam conectar suas bases de militantes e converter a organização de suas infraestruturas de comunicação em votos.
Na estratégia do PL para aproximação com camadas do agro nas quais não tem penetração atualmente, lideranças populares fazem tanto o papel de manutenção da base ideológica quanto o de conversão de agricultores familiares.
Novas lideranças da extrema-direita prometem contribuir com o plano de tomada do congresso por projetos cada vez mais antidemocráticos.
Agora é hora de...
Admitir que buscar a construção de novas bases, em um país que sai fragmentado de um período de polarização, é uma estratégia realista e eficiente para quem almeja jogar o jogo de Brasília.
Enquanto Vinícius Borba promete não ser candidato em 2026 - mas fala abertamente sobre apoiar com seus militantes possíveis candidatos que venham lutar pelo agro da Amazônia -, Raphael Barra consolida sua posição como âncora de narrativa nos temas de crédito e seguro no campo.
Bases fortalecidas por estratégias combinadas de mobilização popular (grassroots, para os íntimos do termo) e alcance em redes sociais, seja pela polêmica e bravata, ou seja pela institucionalidade.
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