Law&Agro #10 | Não há boi que durma com essa conversa: o Super El Niño de vez na boca de quem produz conteúdo para o agro
Os eventos climáticos extremos e os discursos que se movem ao redor de um tema que, até pouco tempo atrás, o agro brasileiro se recusava a mencionar
Mais um ciclo eleitoral se aproxima no Brasil e - como é de costume - o agronegócio lança suas peças a um tabuleiro político já dominado pela elite da classe.
Historicamente, mensagens e narrativas sobre clima, suas mudanças e impactos no presente e futuro da sociedade não fazem parte essencial desse tabuleiro. Tanto porque o campo climático se construiu, ao menos no Brasil, em um ambiente ideológico mais progressista (contrário, portanto, ao esqueleto conservador que sustenta a ação política do agro desde sempre), quanto porque o agronegócio se pautou - nas últimas décadas, principalmente - na defesa de seus interesses econômicos e no negacionismo do que a ciência alertou sobre o avanço do desmatamento, a emissão de gases durante os processos produtivos e os riscos para o regime de chuvas em toda a extensão do território nacional.
O “assunto proibido” vinha sendo figurante na conversa pública do agro em redes sociais, mídia, imprensa de nicho ou de massa e em outros canais nesse tempo todo. Não porque o produtor rural (ou as demais audiências da cadeia) não se importem com o clima - e nem poderia ser assim, já que qualquer atividade produtiva da cadeia depende dele - mas porque há um risco profundo em falar francamente sobre como as mudanças climáticas ameaçam a produção de alimentos em larga escala: perder audiência e relevância em uma camada de público que não quer contato com a verdade.
No entanto, ao que tudo indica, a “tempestade perfeita” que o agro (negócio e atividade) atravessa, além de reorganizar economicamente o setor, promete mexer também nas bases argumentativas nas quais os expoentes e âncoras de narrativa se apegam para alcançar ou manter suas posições. Afinal, falar de clima nunca se transformou em voto, é verdade. Votar, por outro lado, sempre se transformou em formas variadas com as quais a nossa política institucional agiu ou deixou de agir no debate climático. O Super El Niño e seus efeitos para a próxima safra prometem reconfigurar essa lógica.
Quando o Super El Niño deixa de ser exclusividade de outras editorias
Nosso time monitorou as menções sobre o fenômeno em várias camadas de audiência e produção de conteúdo exclusivamente no agro e, por mais incrível que isso possa soar, a constatação é única: o agronegócio conservador descobriu o clima. Não por alguma súbita epifania de preocupação com o futuro do mundo, mas porque o Super El Niño, enquanto fenômeno natural, está dando spoilers de uma conta que os sucessores dos negócios no campo terão que pagar.
Ao acompanhar a pauta ao longo de 2026, nosso monitoramento acompanhou também uma rápida virada de chave: no início do ano, o Super El Niño ainda era tratado e comunicado como uma nota de rodapé, principalmente por atores que falam mais de clima e economia que de aspectos produtivos da atividade. Ao somar 356 menções na última semana de janeiro, o tema não dava sinais de intenso crescimento.
A partir de maio - momento do ano em que o produtor está comprando insumos, negociando financiamento e travando os custos operacionais da fazenda - o tema entra em aquecimento e atinge um pico de mais de 1.400 menções em meados de junho, com o acumulado de menções em mais de 13 mil publicações no período e mais de 2.400 atores abordando o tema simultaneamente. A mudança de patamar da conversa sinaliza que o assunto deixa de ser climático e começa a ameaçar o sono do produtor naquilo que a classe mais teme: impacto direto nas lavouras de soja, milho, arroz, café e, indireto, nas pecuárias de corte e leite.



A partir de maio, também, o termo “Super El Niño” virou o grande motor do debate, o que deu um tom urgente e quase apocalíptico à conversa. O setor, que sempre torceu o nariz para qualquer alerta ecológico, acusou a ciência de alarmismo e distorce o que crianças em idade escolar aprendem sobre a relação agro-clima, sem nenhum constrangimento, passou a usar termos como “evento extremo”, “risco climático” e “escassez de alimentos” ao falar do Super El Niño.
A preocupação com secas severas em algumas regiões e excesso de chuvas em outras serviu para antecipar desculpas ao mercado, antever um novo gargalo de endividamento na cadeia, engrossar o debate sobre seguro rural e blindar as margens de lucro, transformando um problema estrutural de falta de adaptação em uma fatalidade imposta pelo clima.
Nas redes sociais, esse movimento foi orquestrado por uma composição curiosa de vozes. Enquanto o X concentrou o volume do “bate-boca” diário, foi no Instagram que o debate ganhou escala, transitando entre comentaristas de economia, grandes portais, produtores de conteúdo técnico e a imprensa tradicional do agro - de canais como Valor Econômico e Jovem Pan a perfis como Compre Rural e Kellen Severo (produtora de conteúdo que transita entre todas as camadas ideológicas do agro).
No fim das contas, o que esses atores estão fazendo é traduzir a anomalia climática em risco de mercado para o produtor, gargalo produtivo para a cadeia e inflação nas gôndolas para o consumidor.



O agro finalmente colocou o clima no centro da sua pauta. Não porque decidiu finalmente concordar com a ciência, mas porque percebeu que precisava construir, com urgência, uma narrativa pública para justificar e institucionalizar o tamanho do prejuízo que vem pela frente.
Mas nem tudo é avanço. A resistência existe e ela tem nome e alcance
Pelo bem da realidade, observar e monitorar todos os movimentos se torna necessário.
Ainda que atores que - tradicionalmente - não falavam de clima e de como as mudanças afetam a vida em sociedade estejam revendo a postura, falando não só em quem vai pagar a conta, mas em como os modelos produtivos devem se tornar mais resilientes, há expoentes de mensagem determinados a “trucar” a ciência a todo custo.
O climatologista Luiz Carlos Molion, uma figura já conhecida por amplificar e ancorar vozes negacionistas, parece determinado a contrapor a ciência alegando que não há base científica para afirmar a existência de um Super El Niño. Monitoramos, no período, as participações de Molion no programa Pânico e no videocast AIBA em ação. Nas duas aparições, Molion questionou a existência do fenômeno e sustentou narrativas repetidas que o agronegócio conservador exercita há mais de uma década.
Apesar do alarmante alcance (vídeos com 840 mil e 376 mil visualizações no YouTube e publicações com 1,2 milhões, 600 mil visualizações e 40 mil compartilhamentos no Instagram), um mergulho nos comentários das publicações oferece um exercício a parte: visualizamos centenas de produtores rurais ou trabalhadores da cadeia do agro colocando Molion em descrédito. Fica mais difícil negar os efeitos das mudanças climáticas quando o produtor, outrora negacionista, sente em tempo real que a rentabilidade e longevidade da fazenda estão em risco.
Na outra ponta da conversa, ao mesmo tempo, vídeos em que produtores rurais relatam os efeitos das mudanças climáticas no ciclo produtivo corrente concentram atenção, propõem debates pertinentes, cunham mensagens políticas e entristecem quem produz e consome alimentos.
O vídeo de Lucas Cavalca Nunes - que acompanha esta edição - fala sobre como o regime de chuvas em Roraima está sendo afetado, afirma que a colheita pode não acontecer, deixa uma mensagem política clara e é introduzido com uma fala, no mínimo, intrigante: “... o efeito do Super El Niño foi muito forte aqui para nós. Conversando com os antigos, ninguém nunca viu nada parecido".
O que está sob ameaça em 2026 não é só a monocultura. Como abordamos em edições passadas, a narrativa de que o agro atravessa uma tempestade perfeita ganha novas bases conforme os acontecimentos do mundo se desenrolam. A “tempestade perfeita” que nasce no endividamento do produtor rural, se fortalece nos altos juros e nos entraves políticos para a renegociação, cresce no apagão de mão de obra no campo e na dificuldade de sucessão dos negócios, se alimenta da volatilidade do sistema internacional e chega à gangorra de preços das commodities, agora, ganha tempestades reais - ou falta de chuva - para colocar o agro em risco com mais perfeição.
Agora é hora de…
Aprender para contra-atacar. O produtor rural brasileiro, de qualquer parte do espectro, muda seu racional de negócio e faz adaptações no processo produtivo sempre que a atividade está ameaçada pela perspectiva financeira de baixa rentabilidade ou pela ideia de não ter legado a deixar para quem assume os negócios da família.
Se o objetivo do produtor é defender o lucro, arcar com as dívidas, alimentar o mundo e deixar terra produtiva para quem vem depois, o que pode suceder o Super El Niño é um prato cheio de dúvidas, um celeiro de incertezas e um pasto plano e verde para abastecer organizações que desejam dialogar com o agro sobre clima.
Não que seja motivo de alegria, mas as portas estão começando a se abrir para todos aqueles que desejam enxergar e efetivar um diálogo franco entre o clima e o agro.
Os efeitos do Super El Niño nas safras de inverno e verão 2026 podem - e devem - ir parar em Brasília. Além de reduzir os resultados de culturas como trigo, soja, arroz, milho, café e outras, o Super El Niño pode atrasar a safrinha, expor regiões como MATOPIBA e todo o centro-oeste a estresse hídrico, alterar bruscamente o regime de chuvas na região sul e no norte, e gerar uma nova rodada de endividamentos e recuperações judiciais no setor: o mesmo quadro que originou as discussões e o impasse político sobre o PL 5122 e a MP 1376.
Entre conflitos políticos, reorganizações econômicas e mudanças de postura com relação a falar ou não de clima com públicos outrora negacionistas das mudanças climáticas, fica uma certeza na qual o campo climático tem obrigação de trabalhar: urge ao produtor rural aprender sobre como adaptar o processo produtivo para o futuro que já bate à porta.
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