Ninguém é suficientemente audacioso para questionar a enorme concentração de poder nas mãos do agronegócio. Mas essa representação política vai chegar no agroatividade?
Quando a música do 1º turno parou de tocar, sentaram-se às cadeiras do legislativo 200 membros da Frente Parlamentar Agropecuária.
A taxa de êxito na reeleição da bancada temática mais forte, organizada e antiga do país e ficou acima dos 70%, o que aponta para uma FPA ainda mais densa nos próximos 4 anos.
Além dos reeleitos e do prognóstico positivo para novos membros, as duas principais âncoras de narrativa da bancada despontam como favoritas a cargos intensamente disputados em Brasília: Pedro Lupion surge como principal nome ao Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) e Tereza Cristina parece não enfrentar resistências para seu plano de assumir a presidência do senado.
Com tanta força, organizadores políticos intrinsecamente costurados ao agro já aproveitam para orientar as pautas e a postura da nova velha bancada: conduzir a discussão sobre jornada de trabalho (e barrar o fim da escala 6x1), resgatar endividados de toda a cadeia do agro via PL 5122 e trabalhar fortemente na chamada “segurança jurídica” ao produtor rural.
CAIADO PESA, LUPION IMPORTA, MAS A CENTRALIDADE DO DEBATE ESTÁ NAS MÃOS DE TEREZA CRISTINA: A VERDADEIRA PODEROSA DO CERRADO (E DO PANTANAL)
Ao olhar para os grupos de debate mais intensos em volta do diálogo agro-eleições, fica claro que Ronaldo Caiado (que já declarou apoio a Flávio para o 2º turno) exerce um peso na conversa pública sobre o voto do agro. As movimentações institucionais, por outro lado, apontam Pedro Lupion como um champion de Flávio em Brasília.
Mas o gráfico abaixo caminha de mãos dadas com uma trajetória que nosso time já acompanhava: Tereza Cristina dominou a conversa pública sobre o endividamento do setor. E esse é o tema do momento.
No tabuleiro do agro, Tereza Cristina nunca joga para ser mera coadjuvante: se entre junho e julho ela esnobou o sacrifício de carregar a vice-candidatura na chapa do 01 enquanto o setor ainda fingia avaliar terceiras vias, às vésperas do primeiro turno a “rainha do agro” subiu o próprio preço ao entregar pessoalmente a carta de apoio da FPA à Flávio.
O flerte com a moderação ruiu sem cerimônia - e sob o peso de aforismos, decretando que “o agro está com Flávio” para emendar uma “campanha intensa para tirar o PT do poder”. O movimento de apoio da bancada ruralista, puxado por Tereza, foi repetido com pressa cirúrgica no segundo turno. No detalhe, a conversa pública sobre agro e eleições ganhou mais volume e intensidade conforme a senadora se mostrou disposta a provar que o ruralismo não precisa sentar no banco do carona.
Se em agosto a campanha de Flávio parecia esvaziada de apoio partidário, principalmente por conta da escalada pública do escândalo do Banco Master, os dias que antecederam e sucederam o 1º turno mostraram que, como Nikolas Ferreira afirmou durante a Festa de Peão de Barretos: “neutro é detergente, o agro é 22”.
Laboratório de formação de militantes
O Pará, estado que era considerado território eleitoral em disputa antes do primeiro turno e - após os resultados nas urnas - se tornou símbolo da vitória do “agrobolsonarismo” é um ambiente complexo, tanto para questões socioambientais
quanto para questões econômicas.
É, talvez, o laboratório mais eficiente para a formação de militantes de extrema-direita, descolados da realidade e movidos por sentimentos de ódio e esperança.
Há várias publicações como esta em plataformas diversas de redes sociais. A análise dos comentários demonstra que a escolha entre os candidatos é mais ideológica que lógica.
Agora é hora de…
Fincar os pés na materialidade das coisas e partir para cima do que o eleitor de regiões rurais perde com a eleição de um projeto que está mais agronegócio que agroatividade.
O caso de Luís Eduardo Magalhães, no oeste da Bahia - em que os altos investimentos em tecnologia de ponta desaguam em emprego minimamente qualificado e em salários mais altos que a média nacional - é um ponto fora da curva.
As cidades mais ricas do agro (em que Flávio dominou com ampla vantagem) não retratam a realidade de todo(s) o(s) interior(es) pelo brasil em que flávio também demonstrou crescimento nas urnas.
O que se vê na realidade econômica é que a dependência dos projetos de transferência de renda é o padrão da maioria das famílias.
A vitória de Flávio em regiões rurais, apesar do apoio institucional no primeiro turno - e reforçado para o segundo - não tem apego à concretude das coisas. O resultado se parece mais com uma vitória do discurso delirante neolibeal que com um desejo intenso de mudança por parte do eleitor.
Enquanto o que Flávio fala é totalmente endereçado ao agronegócio, o pequeno e o médio produtor se sentem abandonados pelo estado. Além disso, moradores em regiões rurais que não detêm terras produtivas, por vezes, dependem diretamente de benefícios do estado que são ameaçados em caso de vitória de Flávio no próximo dia 25.
Na edição #1, afirmamos que dialogar com o trabalhador do campo demandará abrir mão do conflito, ouvir as dores, validar o sentimento e conversar sobre as questões materiais que ameaçam principalmente os negócios de médio e pequeno porte, tais como crédito e endividamento, eventos climáticos extremos, apagão de mão de obra, seguro rural e preço dos combustíveis.
Aqui, complementamos: conversar com o morador de regiões rurais, para o 2º turno, exige a tentativa de fortalecer a materialidade das coisas e falar sobre como o benefício que sustenta uma casa toda - ainda que tenha perdido poder de compra nos últimos anos - está sob risco real em caso de Flávio vencedor.
NA PRÓXIMA EDIÇÃO: UMA CURADORIA DE CONTEÚDO EXCLUSIVA DAQUILO QUE ROLA NOS GRUPOS DA EXTREMA-DIREITA DO AGRO E DESCOLA COMPLETAMENTE OS MEMBROS DA REALIDADE.
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